- Conte-me teus pecados!
- Não consigo repetir em sã consciência, as barbaridades que fiz.
- Mas tente!
- Não posso. Os meus malfeitos até a mim apavoram.
- Se não me contares, não poderei te absolver.
- Eu não passo de hoje padre. Não posso morrer com este peso. Eu preciso comungar.
- Não é possível sem que me confesses. Tu tens de partilhar comigo para que eu te absolva e...
Neste momento, João percebe que seu visitante que até pouco agonizava, já não respirava. Sai daquele cômodo meio desolado, mas inabalado em suas convicções. Quem não confessa suas malfeitorias, não é merecedor do perdão, pensou.
João e José eram estudantes na mesma escola nos anos 30. Não poderiam ser chamados de amigos, mas eram colegas da mesma turma. João foi sempre muito estudioso e, por sua conduta, desde cedo demonstrou seus dotes religiosos. Ajudava, nas manhãs de domingo, como coroinha, o padre a rezar as missas.
Nas festas dominicais realizadas pela igreja matriz, ele sempre estava presente. José pelo contrário, não gostava de estudar. Freqüentava as aulas sim, mas porque sua mãe mandava. Nunca teve interesse por religião, mas assistia a missa todos os domingos, pois sua mãe o levava de arrasto.
Claro que foi batizado, ele era criança e não se governava. Fez a lª comunhão, isso era hábito na comunidade. Qualquer criança na tenra idade o fazia. Muitos, como José, sem saber o porquê daquilo, também fizeram. Aos quatorze anos havia sido crismado, mas isso também parecia ser mais uma coisa que lhe foi imposta. Havia muitas imposições e porquês sem respostas. Ele simplesmente se deixava levar, depois isso ou aquilo não tirava pedaço nem doía. E o tempo passou...
Ambos aos dezoito anos, José muito namorador e galante, com pouco estudo e sem uma profissão definida entra para o exército. João seguindo sua vocação, já no seminário é ordenado padre e...
Estoura a segunda guerra mundial. José é mandado para frente de batalha. Pobre José! Mal sabia o significado da palavra guerra. Aprendeu, entre outras coisas que, para sobreviver deveria matar antes que fosse morto. O que não queria, mas teve de fazer muitas vezes.
Sentia um grande pesar quando, num enfrentamento, isso acontecia. Com o tempo já não se importava mais, mas sabia que alvejar alguém doía mais que levar um tiro. Entre uma batalha e outra, ora indo para cima atacando, noutras recuando, é ferido mortalmente...
João, neste intermédio, tendo assumido uma paróquia nas imediações em que se davam tais confrontos, é visitado de repente por dois soldados trazendo José. Entram pelos fundos e ali o largam para a extrema-unção. José, de imediato, é reconhecido por João. O padre seguindo à risca o que lhe foi doutrinado, nega o último pedido do moribundo.
Na vida tudo pode acontecer. Assim como se sucedeu com José, do mesmo modo poderia ocorrer a qualquer vivente e até mesmo com João, se os papéis fossem inversos, pois ao nascer já temos nosso caminho traçado...
No seu leito de morte, João agradece a Deus pela longa vida que teve sem pecados. Das pequenas e grandes coisas que deixou de realizar em prol de sua crença. Dos sacrifícios que a vida lhe impôs e que cumpriu sem nunca reclamar, sentindo-se na obrigação de fazê-lo, por ter sido assim que lhe foi ensinado por seus superiores.
É noite! João se vê nesta hora num labirinto excessivamente iluminado. Não sabe onde está. Não sabe como chegou e nem imagina como sair dali. De algum ponto daquele recinto parte aquela luz, que a tudo ilumina e ofusca seus olhos. Os espelhos que refletem essa luz estão em todas as direções e para qualquer lado que olhe é igual.
Não sabe de onde parte essa luz. Então tenta tocar tais espelhos para se localizar, que parecem se afastar quando ele está chegando. Anda noutra direção acontece o mesmo e fica mais confuso ainda. João sabe que essa luz não parte de muito longe, pois se vê refletido muitas vezes em todas as direções, como também vê o reflexo dessa luz bem próximo de si.
De repente João, nervoso, percebe alguém a seu lado. Tenta ver de quem se trata, mas não consegue.
Porquê tu estás tão aflito João?
- Eu estou perdido!
- Mas tu não és um homem de Deus, João?
- Sim, ele responde.
- Não tenhas medo João. Dê-me tua mão e venhas comigo.
Ao tocar no desconhecido, João percebe que já não está mais no mesmo lugar. Que aquela luz e os espelhos sumiram. Não sente mais aquele abandono. E pela primeira vez consegue definir quem esta a seu lado. Não o reconhece mas pode ver seu rosto.
João não sabe a que atribuir tamanha tranqüilidade que passa a sentir. Pensa estar sonhando. Olha novamente para aquele homem e percebe familiaridades nele, então pergunta:
- Quem és tu?
- Meu nome é José.
João, como num passe de mágica, vê sua vida inteira reprisar e lembra José morrendo em seus braços.
- O que tu fazes aqui? Eu te vi morrer!
O mesmo que tu, João. Tu também morreste, meu querido.
Só então, João se dá conta de que não sonhava, que estava morto de fato, que não fazia mais parte do primeiro plano e, nesse instante, João lembra de que alguém lhe contara uma história que nunca saiu de sua cabeça. Recorda que nessa ocasião, nessa história, haviam dois amigos, bem próximos, que conversavam, como se um estivesse dando conselhos aos outro, que dizia:
- Hoje, depois de mudar de idéia tantas vezes, posso concluir que todos os dias são especiais. Não quero deixar para amanhã o que posso fazer agora. Todos os dias são especiais porque, estar vivo já é um grande motivo para festejar. Lembro que uma mulher abriu o guarda roupas de seu esposo e pegou uma caixa, onde estava embrulhado um terno novo em folha. - Isto, pensou ela, não é um simples pacote.
Tirou-o da caixa, desembrulhou do papel que o envolvia e observou o belo terno de linho. - Ele comprou-o numa loja local na primeira vês em que fizemos compras juntos, há uns dez anos atrás. Nunca o usou, estava guardando-o para uma ocasião especial, talvez. Bem creio que a ocasião é esta, pensou. Aproximou-se da cama e colocou o terno junto das outras roupas e objetos que ia levar para a funerária. Seu esposo tinha acabado de morrer.
Esse homem, não era uma pessoa qualquer. Esse homem além de amigo era um grande parceiro. Batedor de pandeiro das noitadas de samba que fazíamos. O que, por muitos anos, deixou de acontecer. Nossa música se calou. O doutor largou o surdo de lado. Eu até pensei que nunca mais cantaria e até que esqueceria nosso repertório. Seu filho, hoje já adulto, eu nunca mais avistei. Seu maior amor. Cresceu sem pai. Lembro que ele levava dependurado no espelho retrovisor de sua camionete um sapatinho do guri. Muitas coisas esse pai deixou por fazer. Qualquer hora faria, quem sabe. O que tivesse que ser seria e aconteceria, qualquer hora. Não o deixou desamparado mas, um filho precisa de um pai para se espelhar.
Por isso eu te digo: Não guardes nada para uma ocasião especial. Cada dia que se vive é uma ocasião especial. Reúna teus amigos. Teus filhos. Teus irmãos. Diga sempre que puderes o quanto os ama. O quanto é bom tê-los por perto. Poder contar com eles e estar sempre pronto a ajudar, pelo menos com tua presença, se não for de outro modo. Hoje estou lendo mais, pescando mais, cantando e escrevendo muito mais e trabalhando muito menos.
Sento-me na frente de casa e admiro a vista, sem me preocupar com as maledicências da vida. Não fico me martirizando ou me preocupando se vai ou não chover ou se vai ter sol. Se vai fazer frio ou calor. Fico mais tempo com minha família e menos tempo no trabalho. Compreendi que a vida deve ser usufruída, desfrutada e não sobrevivida. Não me preocupo mais se alguma má língua fala mal de mim. Quero mais que se fodam. Já não guardo nada para amanhã, nem mesmo um xingamento para tais pessoas que estão merecendo ouvir meu desagravo. Uso meus copos de cristal todos os dias, ao beber uma cerveja um bom vinho ou simplesmente água. Coloco uma roupa nova para sair de casa, se me der vontade. Viajo sempre que posso sem pressa de voltar. Vou ao meu futebol, encontro meus amigos e faço novos amigos se estes o quiserem. Uso perfume quando vou sair se precisar ser mais atraente. As frases qualquer hora, algum dia e quem sabe, eu já risquei do meu vocabulário. Se vale a pena ver, escutar ou fazer, quero ver, escutar e fazer agora.
Não sei o que teria feito esse meu amigo se soubesse que não estaria mais entre os vivos no dia seguinte, o que todos nós também ignoramos. Eu no, seu lugar, teria chamado meus familiares e amigos mais chegados para pedir a eles que não chorassem na despedida. Talvez chamasse alguns camaradas antigos para me desculpar e ficar de bem por possíveis desavenças do passado. Gosto de pensar que teria preparado e comido aquela refeição especial e gostosa que minha família e eu tanto gostamos e sempre deixei para cozinhar amanhã, quem sabe.
Penso que teria dado mais atenção às crianças a quem muitas vezes não fui bastante dedicado e atencioso mesmo sabendo que elas gostam e precisam disso, porque que também já fui criança e passei por este drama. Com isso, talvez perceber coisas que só as crianças percebem, pois só os de alma limpa como as crianças têm essa percepção, esse poder, e me preparar para o inesperado.
São estas pequenas coisas, deixadas por fazer, que me fariam desgostoso se eu soubesse que estaria vivendo minhas últimas horas. Desgostoso, porque deixaria de ver amigos com os quais poderia me encontrar... Cartas e bilhetes. Poesias, letras musicais e as besteiras costumeiras que sempre escrevia e que tencionava voltar a escrever qualquer dia destes. Desgostoso e triste porque não disse à minha mulher, minha mãe e pai, meus filhos e meus irmãos, com suficiente freqüência, lhes amar.
Agora, trato de não atrasar, adiar ou guardar nada que traria felicidade, risos e alegrias para nossas vidas. E a cada manhã, digo a mim mesmo que este será um dia especial. Porque alguém gosta de mim e porque há muitas pessoas de quem eu gosto muito. Se tu estás muito ocupado para gastar uns poucos minutos com teu próximo, e se tu disseres a ti mesmo que o fará qualquer dia destes, penses que este qualquer dia está muito distante. Ou pode não chegar nunca...
Não sejas o dono da verdade e não sejas sempre falante assim como estou fazendo. O dom de ouvir é dádiva de poucos. Sejas atento. Dediques sempre uma parte, mesmo que seja uma pequena parte do teu dia a quem é teu amigo, a quem é teu filho ou pai ou até mesmo a quem gostaria de ser. Saiba que estes que gostariam de ser pensam desta maneira, justamente por tê-los cativado.
Assim sendo, tua responsabilidade para com eles é muito maior. Penses que, por seres diferente é que eles te adoram e te colocam no lugar de pai ou filho ou etc. ... Saibas que eles fazem sempre esta comparação. Lembres sempre disto e hajas como tal. Eles ficarão muito felizes e tu também o serás. Sejas atencioso pois, mesmo que não aparente, eles precisam disso.
Estejas presente sempre, quando um dia algum deles estiver carente, sentir-se-á contente porque ele sabe que é amado e terás sempre alguém que vai te escutar. Jamais o faça por egoísmo, o verdadeiro até em pensamento se dá e se faz presente e será sempre lembrado. Hajas desta maneira, perceba os erros e aponte, quando for preciso, e defenda-os quando os julgar injustiçados. Se faça respeitar, mas se dê da melhor maneira havendo reciprocidade. Tenhas e demonstres sempre boa vontade.
O bom amigo a gente ganha e o mau a gente cria. Não gaste dinheiro à toa. Lembres que amanhã poderá fazer falta. Que amanhã teus filhos poderão usufruir o que fizeres agora ou não. Tudo depende de ti. Mas não faças papel de palhaço.
Lembro de uma vez, quando reuni alguns amigos para meu aniversário, o que na verdade tentava fazer era reuni-los simplesmente, já que isso não me custaria os olhos da cara e não acontecia há muito tempo. Eles não entenderam desse jeito. Proferi algumas palavras explicando a situação e agradecendo pela presença, salientando que era muito bom tê-los comigo, ali reunidos. Aí alguns deles começaram a rir, mas eu continuei falando mesmo assim, até que lá pelas tantas alguém fala: - Como é bom churrasco com gosto de pato. Então parei de falar.
Dei continuidade à festa, mas, foi a última vez que alguém os reuniu. Percebi que a maioria ali não era meu amigo e nem uns dos outros. Que a maioria ali não tinha tempo pra isso. Que o egoísmo não lhes permitia agir desse modo. Então descobri que boa intenção não basta e que não devemos dar soco em ponta de faca. Que existem outras pessoas que precisam mais da gente. Desse modo parei de perder tempo à-toa, amanhã poderia ser tarde. Quando eu era pequeno lembro que queria crescer, para ter um bom emprego e ganhar bastante dinheiro para ajudar minha família que geralmente contava as moedas para levar a vida e...
- Como podemos estar no mesmo lugar se por toda a vida, tu foste um pecador?
Até nesta hora, João se acha mais digno que José.
- Eu não te absolvi, naquele dia. Tu deverias ter ido para o inferno, conforme nos foi ensinado.
- Eu sei, João! Naquele mesmo dia, eu vim para cá. O homem que me recebeu falou:
- Entre meu filho.
- Não sou merecedor, eu falei.
- Aqui, todos nós somos iguais, José, portanto merecedores, disse ele.
- Mas eu não contei meus pecados ao meu confessor. Nem comunguei como precisava naquele dia.
- Eu já conhecia teus pecados José e tu não os cometias por maldade. Tudo que fizeste te foi determinado. A maldade está nos atos, não nas ações. Basta uma vez na vida um filho lembrar do Pai e será por ele amado para todo sempre. Por outro lado, eu nunca falei um monte de besteiras que a mim foram atribuídas. De que para ser perdoado deveriam ser feitas confissões para quem quer que fosse. Isso foi ensinado por gente que distorceu meus ensinamentos e queria se fazer importante. Eu nunca disse que para entrar no reino de meu pai o homem deveria se desfazer de seus bens. Como alguém poderá se desfazer de algo que não é seu? As pessoas já nascem com um propósito na vida e, este propósito é incutido por nosso pai no dia do nascimento de cada um. Os bens designados a cada indivíduo pois, não são sua propriedade. Cada indivíduo deverá administrar tais bens que ficarão a cargo de outra pessoa quando ela se for a seu chamado. À igreja jamais foi determinado julgar quem deve ou não permanecer entre os vivos ou entre os mortos ou quem deve ou não se encontrar com criador, indo ao Céu ou indo ao inferno encontrar-se com o Diabo. O medo de alguns dirigentes religiosos fez com que se originasse essa doutrina de maneira errada, usando o nome de nosso pai, para julgar e condenar quem estivesse pondo em risco “seu poder”. O que chamaram de “Santa Inquisição”, é um exemplo disso. Aquilo foi uma barbaridade. Eu falei - Deixes que eu entre em tua casa - jamais disse, limpes tua casa para que eu possa entrar. Também falei, vem a mim todos que quiserem habitar a casa do Senhor. Com certeza todos somos irmãos e nosso Pai espera ver seus filhos reunidos.
- Depois disso, eu nunca mais vi este homem.
- E isso é tudo? - E as coisas boas que eu pratiquei, não fazem diferença?
- Se foram sem pensar em ti mesmo, sim.
- E as más ações que eu não cometi, não somam?
Dizendo isso João lembra das mulheres que amou e não teve coragem de admitir nem a si próprio.
- Se não aconteceram por covardia, somam. Tudo depende da intenção no momento em que se deu.
- Como tu sabes todas estas respostas, José?
- Todas as dúvidas que tu tens eu também tive, João . O homem que me recebeu me respondeu a todas elas.
- Por que o mesmo homem que te recebeu, não me veio receber também?
- Esta dúvida eu não tinha quando cheguei, por isso não sei responder. Talvez tenha sido por eu ter chegado bem antes de ti, ou quem sabe por eu ter tido uma vida de muitos pecados.
Assim como tu tens convicção das boas ações praticadas e das más não consumadas, de nada bom posso me lembrar, a não ser das más obradas.
Antes de ir embora, ele me falou que a ti foi dada a incumbência de não me absolver naquele dia, para que tivéssemos esta conversa e que servisse de exemplo para outras vidas.
- Então isso é o fim de tudo? Ninguém erra ou acerta porque quer?
- Não, João. Existe o livre arbítrio. O amor, assim como a maldade, está em todos nós, e, somente nós temos o dom de desenvolvê-las ou não. Muitas coisas, boas ou más, podemos fazer antes de pensar se é certo ou errado. Para outras pessoas e para nós mesmos, sem que ninguém precise nos mostrar como fazê-lo. Nós podemos escolher como agir.
Com certeza havemos de nos encontrar muitas vezes nas vidas que a nós foram designadas, até que um dia, quando nosso grau de crescimento sobre como resolver e fazer, nos tornar perfeitos, e se assim for, estarmos prontos e aprovados. Aí seremos dignos quem sabe de habitar a casa de nosso Pai. Pois levando em conta as palavras que ouvi alguém proferir, onde dizia que o espírito não tem idade, mas traz em si hábitos, defeitos e qualidades dos diversos corpos que habitou em vidas passadas, posso concluir que, as pessoas são assim ou assado de acordo com o espírito que trazem consigo e da maneira que este espírito assimilou cada corpo que habitou. Cada qual demonstrando diferenças de ser, se por e se portar.
As particularidades de cada indivíduo, aceitando ou não determinações, trazem em si muitas conclusões já pré-estabelecidas. Admitindo ou não imposições, mesmo sem saber o porquê e de não entender como isso acontece. Simplesmente seguem seu instinto deixando ou não se levar. A personalidade de cada um é instintivamente influenciada por este espírito incutido ao nascer em cada vida que se tem. As manifestações a partir daí, involuntárias, tomariam conta desse vivente, tornando-o único em seu modo de ser. E, com sorte e com a aprovação necessária aprender como viver aproveitando e usufruindo cada minuto que se tem em cada vida que se vive.