http://www.redevital.net/


Nossa política
de privacidade

Visitas hoje: 150
Online: 6
Responsabilidade sobre o conteúdo das matérias Literatura Contos

Velha moça criança
* Jorge Eduardo de Azevedo ( Marinheiro ) ( 21/06/2007 )
Costeando aquele mato, de repente, não mais que isto, ouço aquele monte de risadas. Quem eu vejo? Como tu sabes? É, ele mesmo. Lá estava ele. O Adélio, ria como louco. Mas isto é uma história que não vou contar agora.

Eu voltava de uma reunião de pais e mestres, ocorrida na escola de meu neto. Trazia comigo muitas reclamações, que foram expostas pelos professores desse guri. Essa criança só pode ter puxado à mãe, pois era sempre assim que acontecia, quando ela estudava. Ela era um terror. Sempre estava com a razão. Brigava sempre, quando lhe chamavam a atenção. Na qualidade de pai, não admitia que minha filha fosse destratada por ninguém, mas eu conhecia minha prole, então ao chegar em casa, sempre sobrava pra ela.

Naquela tarde, trazia também nas mãos os livros do menino. Passando por alguns alunos que estavam parados ao portão do colégio, percebi o quanto e o porquê de haver tanto banditismo nos dias atuais. As crianças saíam da aula e não iam direto para suas casas, ficando a mercê de tantos aliciadores que andam por aí. Gente que vende drogas na porta das escolas. Gente que corrompe de alguma maneira as crianças menos esclarecidas e até as esclarecidas, que por modismos se deixam convencer. Coisa que no meu tempo não havia e... De repente chegando à esquina ouvi alguém chamar:
— Professor!
Olhei naquela direção e percebi uma menina se dirigindo a mim como tal. Aproximei-me dela e falei baixinho ao pé do ouvido para não constrangê-la:
— Eu não sou professor.
— Aluno que o senhor não é, retrucou.
Em seguida, me atropela dizendo: - Vou acompanhar o senhor.
Sem que eu tivesse tempo de lhe responder, enganchou seu braço no meu, e me foi conduzindo estrada a fora.

No caminho de casa, lhe mostrei onde eu morava. Já não tinha mais assunto para com aquela moça que, no meu ver, não tinha mais de vinte anos.
— O senhor está com pressa? Perguntou.
— Na verdade estou. Respondi.
— Mas eu também quero lhe mostrar onde eu moro, e não é longe.
E me fez entrar na primeira rua, antes que eu dissesse qualquer palavra contrapondo. No portal de entrada me fez parar. Abriu sua bolsa e tomou um molho de chaves abrindo tal passagem. Estando eu praticamente dentro de casa, olho para aquela rapariga e digo:
— Pronto, eu já sei onde tu moras. Já posso ir agora, não é?
— O senhor não entendeu. Quero também que o senhor veja uns livros que eu tenho.
— Está bem. Mas tem mais alguém em casa?
Eu já estava ficando preocupado com aquilo.
— Mas precisa mais alguém?
— Não fica bem eu entrar em tua casa sem ao menos nos conhecermos. Como podes levar um desconhecido para dentro da tua casa?
— Já não somos desconhecidos!
— Só na tua cabecinha minha moça, se esta é a primeira vez que nos vemos.
— Mas eu simpatizei muito com o senhor. E meu nome é Genésia, ou melhor, Maria Angélica de Almeida, mas todos me chamam de Genésia.
— Saiba, minha querida, os malfeitores são os mais simpáticos sempre. Não que eu seja um, mas...
Viu só? eu posso confiar no senhor. O senhor mesmo está me garantindo isso.
Apesar de usar um monte de argumentos para sair dali, ela não me deixou ir embora e...
— Traga-me os livros então.
— Espera só um pouquinho.
Ela fala e entra num outro cômodo da casa que eu julguei ser seu quarto. Ao retornar com uma meia dúzia nas mãos, senta a meu lado e começa a folhear me mostrando.
— Mas isso é só pornografia minha filha!
— O senhor não gosta disso?
— Tu não me disseste que tinha livros para eu ver?
— Mas isto aqui não são livros?
— Sim, mas não os que eu esperava ver.
E me segura com as duas mãos pelos ombros me dizendo:
Olha nos meus olhos e fala: Tu não gostas do que está na tua frente?
— A que tu te referes?
— A mim é claro!

Nesse momento, percebo a maldade nos olhos mais azuis e lindos que em uma vida inteira, jamais havia deparado. Na verdade ela era toda linda. Uma criatura que, naquele momento, levando em conta meu estado de espírito, que estava se modificando, em virtude daquela pressão que a mim era imposta, me deixando bobo, sem conseguir agir por minha consciência e sim pela minha macheza natural, me vi abatido. Aquilo não era mulher. Aquilo parecia um bicho, querendo me devorar. A inocência que havia naquele ser, deu lugar à selvageria, que eu nessa hora já não queria contrapor.

Eu estava gostando daquilo, que parecia um sonho. Eu me sentia vivo de novo. Parecia voltar aos tempos de guri, quando eu me arrebentava e brigava para ganhar alguém. Quando só a vitória importava, e me vangloriava, contando aos amigos mais chegados. Nesse dia o gozo estava para acontecer, mas sem precisar fazer força, e foi isso que me deixou assustado.
— Não tenha medo.
E me deixei levar e ser envolvido por aquela vós límpida com cheiro de rosas cheirosas, que me fizeram esquecer o fedor de dentes podres que estava acostumado a sentir.
Quando dei por mim estava pelado, com aquilo tudo entrelaçado em cima de mim. Era uma beleza tão grande, que até hoje não tenho palavras e não consigo explicar como alguém tão jovem pode se interessar por um homem tão velho, alguém que levanta bem cedo todos os dias, para ficar mais tempo sem fazer nada, já na capa da gaita, quanto eu. E também não consegui entender como podia haver uma mulher naquela idade com tamanha sede por sexo e tanto conhecimento no ramo.

Voltando para casa, senti uma espécie de arrependimento, misturado com satisfação, e a vergonha por ter permitido que aquilo acontecesse. Aquela guria fez o que quis. Eu simplesmente deixei-me levar. Eu me sentia como se a tivesse estuprado. Ou terá sido o contrário, estando ela já de caso pensado? De qualquer forma já estava feito e me pareceu ela muito satisfeita ao se despedir, quase implorando para que noutra hora eu voltasse, já que conhecia o caminho.

Lembro com saudade, como se fosse ontem, daquela despedida. Tarado eu? Vocês é que o são por só terem maldade na cabeça. E o Adélio, que praticamente, me obrigou a contar essa história.
As melhores coisas da vida acontecem por acaso. Podemos planejar nossa vida se assim o quisermos, mas o resultado na maioria das vezes demora muito a chegar ou nunca chega. Eu, nesse episódio, fiquei na verdade, não digo traumatizado, pois foi bom demais, mas com marcas que a vida não me fará esquecer.

Dias depois, sem motivo aparente, já que continuei fazendo o mesmo caminho, indo e voltando à escola, levando e trazendo meu neto, e pelo fato de não mais ter visto a tal garota, resolvo ir adiante e passar defronte à sua casa. Dizem que o ladrão sempre volta ao local do crime, mas eu apesar de lembrar muito bem daquele trajeto não encontrei a casa da moça.

Onde deveria ser, pois lembro muito bem do local, está plantado um edifício de oito andares. Não entendo como isso pode ser possível. Até, pensando bem, posso ter me enganado. Mas eu não sou caduco, eu tenho certeza que foi nesse lugar que tudo aconteceu. Por mais que me esforce e repasse cada passo daquele dia, em nada consigo mudar, o local é aquele.

Os dias foram passando, as semanas, os meses, e até que três anos depois acontece inesperadamente e inexplicavelmente o desfecho dessa história que eu até já havia tirado da cabeça.
Estando eu, para a festa junina daquele ano, no colégio de meu neto, percorrendo os corredores da instituição, a fim de apreciar as obras de arte expostas em suas paredes, avisto, pelo vidro de uma das portas laterais, quadros com retratos de todos os diretores desde a fundação daquela escola. O primeiro, o bem da esquerda, visto de frente em letras garrafais, me deixou arrepiado e de cabelos em pé, com os seguintes dizeres: “MARIA ANGÉLICA DE ALMEIDA” e entre parênteses (GENÉSIA) Diretora fundadora, em 1925. Era ela, e meu nascimento só aconteceu no ano de 1950.

* Escritor


Voltar Mais Literatura Contos ...



Rio Grande do Sul         Brasil




As melhores piadas da web
Ria e divirta-se a valer
Somente piadas inteligentes

www.redevital.net/ Piadas


Jornal Zero Hora
Anuncie em ZH Classificados
Faça seu anúncio via Internet

www.redevital.net/ Classificados RBS


Diário Gaúcho
Anuncie no ClassiDiário
Faça seu anúncio via Internet

www.redevital.net/ Classificados RBS


Jornal O Pioneiro
Caxias do Sul/RS e região
Faça seu anúncio via Internet

www.redevital.net/ Classificados RBS



Jornal Zero Hora
Anuncie em ZH Classificados
Faça seu anúncio via Internet

www.redevital.net/ Classificados RBS


Prefeitura Municipal
de Cachoeirinha

Site Oficial
portal.cachoeirinha.rs.gov.br

Editora do site: Vital Comunicações - Fones (51) 3470-3653 e 8406-0092 - e-Mail: vital@redevital.net
Rua Clóvis Pestana, 44 - Centro - Cachoeirinha/RS