No necrotério, aquela laje fria me gelava a bunda. Uma agonia se apodera de mim por não poder sair dali. Sinto-me apreensivo nesta hora. Eu não era ouvido por ninguém, por mais que tentasse me pronunciar.
Vejam como é a vida! De uma hora para outra, já não se faz parte dela. Era um aperto aqui, um puxão acolá, e nada que eu pudesse fazer para que parassem com aquilo, que para mim não era normal. Estava eu ali deitado, a tudo assistindo mas ninguém percebia. Já nem sentia frio naquela noite gelada, onde todos se encolhiam pela friagem que fazia. Onde se espremiam e se encostavam roçando-se uns nos outros para suportarem a frieza daquela noite de Julho. Era a noite mais fria pela qual já haviam passado, diziam. Eu estava ali, deitado, sem poder me manifestar. Eu estava morto, afinal. Não que eu quisesse, mas o que podia fazer? Eu observava aquela gente. Eu era a peça principal naquele episódio. Eu era, enfim, o ator principal daquele drama que eu nunca pensei participar. De um filme derradeiro e ao mesmo tempo primeiro, sem nunca ter atuado. Eu estava ali, deitado simplesmente, analisando a frieza para com minha pessoa. Meu pai sempre disse: nas mãos de um médico legista ou de um agente funerário, a gente não se governa nem faz sugestão. Percebi então a diferença que existe entre estar aqui e não estar. Eu não estava mais aqui! Eu estava, mas não estava, entendes?
As tesouras e bisturis deslizavam por mim como brinquedos. Algodão e gaze, nunca vi tanto. Era um tira daqui e bota ali e acolá, tapando ouvidos e narinas e até na minha saída, como se fosse entrada, enfiaram alguma coisa. Não havia necessidade daquilo, gente... Queriam acabar comigo mesmo!
Volta e meia alguém pergunta:
- ”Como está?”
- “Falta muito?”
- "Já está quase pronto”, outro responde.
E mais manuseios em cima de mim. Até uns produtos fedorentos derramaram em cima de meu corpo amarelado. Parecia até que eles estavam com medo de que eu saísse andando dali. Por certo não tinham certeza sobre o meu estado de saúde.
De repente, alguém grita:
- “Feito.”
Senti minha bunda ser levantada dali. Claro que não foi somente minha bunda achatada que saiu daquela pedra fria. Todo o meu corpo era removido.
Pegam-me, um pelas axilas e outro pelos pés, e me jogam dentro de um caixão, como se eu fosse um saco de bosta. Que falta de consideração! Eu até acho que, este tombo, foi mais um teste que fizeram. Queriam ter convicção de que eu estava realmente morto. O melhor na verdade, e só então me senti aliviado quando finalmente me liberaram do IML. Eu observava e pensava: o que farão agora? E continuei observando. Eu via e ouvia algumas pessoas falando:
- “Coitado!” - Outras choravam e se lamentavam.
Já é meia noite, desta noite que nunca vai acabar. Observo o movimento daquelas pessoas que, faturando ou pagando algum dinheiro, estão ali em função de mim. Eu vejo tudo que se passa, sem poder opinar. Apenas aceitar o que fazem. De repente, me vejo deitado sendo admirado por todos, no centro daquela sala. Sinto as pessoas passarem a meu lado. Algumas rezando e outras excessivamente chorosas, nem sei por qual motivo. Pois até nem importa. Eu, na verdade, queria que todos sorrissem ao invés de chorar...
Só agora entendo o porquê de um dia assim parecer tão longo. É que ninguém dorme enquanto tudo não for consumado. O cansaço pega todos de jeito e não dá uma trégua. Então podemos concluir que esse dia, na verdade, somente é bom para o defunto. Ele fica ali deitadão, curtindo o sono dos justos, enquanto os demais se despedaçam em trabalho, dor e tristeza. Só não entendo, por que ninguém em vida percebe. Nesta hora tudo cai por terra. Alguém que se amou, já foi. Descansou, não está mais aqui e não vai dar mais as caras.
Não consigo compreender, porém, de que maneira eu posso ver e escutar tudo isso. Doador que sou, tudo devem ter-me retirado e mesmo assim não parece. Mas eis que de repente me surge uma dúvida: será que me tiraram à vida, com esta finalidade? Sim, com a intenção de me retirar os órgãos. Claro, só pode ser! Se bem que meu fígado estava a muito, queimado pelas cachaças, limões, jurubebas, traçados e rabos de galo dos quais eu era muito chegado. Meus rins, de tanto filtrarem as cervejadas e licores homeopáticos, tipo catuabas, gengibres, agriões e graspas, que tomei durante toda a vida, por certo estão carregados de cálculos renais, que nem a massagem linfática ajudou a eliminar. Meus pulmões deviam estar pretos, pelo tempo que fiz uso de cigarros, charutos e palheiros. Minha vesícula com certeza devia estar seca, pela grande quantidade de pedras, que se formaram no decorrer da vida em função da alimentação gordurosa que eu era acostumado e tanto gostava. Meu pâncreas já a meio pau, devia estar acabado, assim meio flambado, de tanto administrar as bebidas doces carregadas em méis e açúcares das batidas de jambo e de erva cidreira que sempre bebi, quando batia a tremedeira ou palpitação. Até quem sabe a de carqueja e de quebra, alcachofra que se diziam bons pra enfrentar o frio e calor ou isso e aquilo e, até mesmo os ciscastes que deveria, mas nunca ofertei ao santo como é de costume antes do primeiro gole. Nem as gostosuras refrescantes ou calorosas que se originaram de quando a homeopatia foi buscar na flora medicinal. Minhas córneas já cansadas, de tantas noitadas passadas em claro, nem a mim ajudavam muito sem óculos. É, até meu coração devia estar mal por algum motivo. Lembro que sempre doía quando eu via alguém maltratando uma criança ou cometendo alguma injustiça com quem não podia se defender...
O vinho é servido em copos de plástico descartáveis. Que desperdício! “É o mesmo que trepar uma mulher linda, no escuro.” Onde está a graça? Mas, tem gosto pra tudo. Neste momento, ouço alguém falar, o que me deixa bastante irritado:
- “É uma perda irreparável!”
Vai pra puta que te pariu com isso! A falsidade corre solta nesta hora. Olho naquela direção e vejo alguém abraçando, tentando consolar minha viúva. Por certo quer ser o primeiro a comê-la após minha morte. Eu sei, ela é muito gostosa ainda. Como também, que não estou mais aí para reclamar ou esboçar qualquer reação. Mas que falta de respeito! Eu ainda nem esfriei! Claro que isso também é força de expressão, pois há muito tempo, sempre percebi o quanto ela sempre foi admirada e desejada. Eu sempre me fiz de louco, mas entendia e virava a cara para não ver o que sempre se repetia. Mesmo por que, a fruta do pomar do vizinho sempre foi muito melhor que a do nosso. Neste momento alguém fala:
- “A vida não vai ser a mesma sem ele.”
Que besteira este filho de uma puta está dizendo! É outro que sempre se fez de amigo, para um dia dar o bote. Vejam como ele lhe aperta para dar conforto. Que cara sem vergonha, e ela nem percebe. Apesar de que ela também, sempre se fez de desentendida, quando esses “amigos” se chegavam cheios de amabilidades, deixando suas patroas noutro canto. Estas mesmas mulheres que, quando vivo, eu não papei por consideração, pois se atiravam como loucas, quando seus maridos não estavam por perto. Eu sempre falei que é melhor estar mal acompanhado do que não ter nenhuma companhia, mas isso aí já é demais. Mesmo porque, eu sei que eles estão pensando: antes tu do que eu. E fazem esta cara de pesar. É, parece que todos vieram com o mesmo intuito.
Já vai tarde seu corno! Ela ficará em boas mãos. Não te preocupa, ta bom?”
Para qualquer lado que eu olho, vejo alguém conhecido marcando sua presença ou sei lá o quê. Na vida se perde a vergonha, os dentes e os cabelos, mas a cisma parece que nunca se perde. Adélio, tua hora chegou! Esta é tua hora! O que se há de fazer? Ela dará um jeito. Aí lembro das minhas crianças. O que será delas? Como viver com este peso? Vejam só o que eu estou falando! Não vou viver de nenhum jeito mesmo! Já me fui! Mas o que farão? Eu sempre fiz tudo por elas! O que passarão sem mim? São crianças simplesmente! E elas nem estão aqui, não as vejo...
- “Dr! Venha depressa!”
- “O que foi Mano?”
- “Ele abriu os olhos!”
- “Verdade?”
- “Pois olha o senhor mesmo!”
- “Mano, o soro tirou-o do coma. Vamos por a agulha no outro braço agora. E tu deves observá-lo. Qualquer mudança no quadro daqui pra frente, tu tens de me comunicar” e...
Passados alguns minutos eu sento na cama com dores no corpo todo. Sinto-me arrebentado, mas muito aliviado. Eu não havia morrido, afinal. Mas por pouco a diabetes não me leva. E, num tom irônico, Mano desabafa:
- “Ataque de bicha em Dr!...”