A mansão estava toda iluminada. Nunca, em tanto tempo de residência naquelas vizinhanças, eu havia percebido qualquer sinal de vida nos lados de dentro daqueles imensos muros que circundavam tal edificação. Aquela propriedade, que eu não sabia a quem pertencia, ficava no mesmo caminho de onde eu morava.
Chegando na pensão, senti que alguma coisa não estava certa. Por costume, naquela hora da noite, eu sempre dava uma olhada em todos os cômodos da casa antes de me recolher. Nessa noite as coisas foram diferentes. Senti uma sensação estranha. Não me sentia à vontade. Não conseguia relaxar. Me sentia apreensivo. Eu estava só e também não entendia como. Nunca, em qualquer dia que fosse, vi aquela pensão tão deserta e silenciosa. Na pensão havia diversos mictórios, mas o banheiro era coletivo com muitos chuveiros, devido ao grande número de residentes. Os quartos eram numerados e cada pessoa da casa tinha um armário de mesmo número no banheiro. Os armários eram feitos de metal e mediam, de cima a baixo, dois metros por uma largura de quarenta centímetros.
Naquela noite, marcante em minha vida e que jamais alguém esqueceria, entrei no banheiro. Era imenso. O silêncio era assustador. Liguei o chuveiro e pensei: Vou relaxar agora. Olhei para frente e de costas para a parede avistei os armários localizados na outra extremidade do recinto que pareciam tão longe. O meu com uma particularidade: do meio para baixo, havia uma espécie de tinta avermelhada que descia.
O banho morno não me acalmava. Pela primeira vez na vida senti medo de alguma coisa, que não sabia explicar o que era. Eu simplesmente estava apavorado e não sabia o porquê. Tentei chegar mais perto para ver do que se tratava aquela tinta vermelha e não consegui me aproximar. Apenas pude ver, com nítida impressão, que de dentro daquele armário havia alguma coisa que se estufava para fora e espirrava. Que expelia e fazia vazar o vermelhão que escorria para baixo inundando o chão.
Voltei ao meu quarto. Passei a chave na porta, mas não me senti à vontade. Eu estava apavorado. Olhando pela janela avistei a luminosidade da casa vizinha. Com muita pressa me vesti para sair. Não queria ficar ali.
Na mansão havia festa. Não me impedirão a entrada, pensei. É com certeza, uma festa particular e daí. Era sexta-feira. Ninguém se importaria comigo, por certo, se eu fosse lá. Por anos, quando olhava pela janela e avistava aquela moradia sempre tão sombria, imaginava: Não deve haver ninguém morando ali. É um lugar triste, tão sem iluminação. Desabitado sem sombra de dúvidas. E agora, vejam, que mudança. Parece até que sempre esteve assim, mas eu nunca havia visto desta maneira. A luz, que se via, e o som, que de lá irradiava, eram hipnotizantes me chamando. —Eu vou lá pensei. Não vou perder uma festa dessas.
O pavor havia me dado uma trégua. Saí para a rua nada temendo. Aquela luz me atraía. Andava e, cada vez mais perto, embriagado pela beleza, que via, adentrei os portões. Aqueles imensos portões pareciam estreitar, olhando-se de baixo para cima. Conforme eu percorria os pátios da casa, com flores várias, em canteiros fartos, percebi que não havia ninguém com a menor intenção de me barrar a entrada, muito pelo contrário, todos pareciam esperar por mim. Então pensei: —Estarão eles me confundindo com alguém? Serei eu tão parecido com algum convidado ilustre? Mas eu não sou ninguém na vida. Deve ser engano!
Quando, chegando na porta principal, me vi de frente com amigos, que há muito não via, todos me cumprimentavam. Pessoas que nunca tinha visto me abraçavam e me reverenciavam como se vissem alguém muito estimado. Procurando me parecer indiferente, sem mostrar a grande curiosidade em tudo que via, fui andando, olhando e admirando tudo. Tanta beleza num só lugar. Tudo era magnífico, deslumbrante e encantador. Eu não estava acostumado com tanta beleza. Nem sequer lembrava do pavor que me dominara, momentos atrás. Tudo havia fugido do meu pensamento. Não lembrava de nada diante daquilo que estava vivendo. A curiosidade não me largava. Apreciava cada momento, para cada canto que olhava, sentia particularidades distintas e requintadas. Nas paredes, quadros raríssimos de pintores famosos. O piso, por onde eu andava lentamente pela embriagues que sentia, era importado, pensava. A postura das pessoas me causava inveja. Os garçons tinham métodos delicados. Muito atenciosos, me faziam perceber o quanto não conhecia o ramo, já que exercia a profissão. Quis me servir, não me deixaram. Tratavam-me como dono da casa. Não entendia o porquê de tantos cuidados para com minha pessoa, mas também não deixei transparecer.
Olhava tudo à volta e me apaixonava por essa vida que eu não conhecia, mas que me cativava mais a cada segundo. Encontrava-me, então, no salão principal. Parecia, pela sua imensidão, que ocupava todo o andar inferior. De onde eu estava, avistavam-se duas grandes escadas que, como um arco de lua, partiam de baixo, cada uma de um lado do salão e, se encontravam no segundo piso, uma de frente à outra. Era uma beleza. O encantamento era geral. No entanto, não entendia como alguém, como eu, poderia usufruir o lugar dessa maneira. Eu não era desse meio. Um humilde trabalhador assalariado que, mal e porcamente, ganhava para as despesas. Sem levar em conta o fato de não haver sido convidado.
De repente, como para piorar minha incredulidade, me aparece, no topo daqueles balaústres, uma jovem de voz límpida dizendo:
- Sou eu.
Procurei, neste instante, como que incrédulo, desviar o olhar dando alguns passos noutra direção, mas tive que parar. Olhei para os lados e percebi que todos, à minha volta, me olhavam e aguardavam algo mais. Com naturalidade, mas sem crer no que acontecia nem que fosse a mim que aquela deusa se dirigia, esperei o desenrolar daquilo que parecia ser sonho.
Parecia até, pela natureza dos acontecimentos, que eu a qualquer momento acordaria de um belíssimo sonho. Coisa difícil de se imaginar pela complexidade e diversidade de emoções até então nunca vividas. Pensando bem... só podia ser um sonho! Claro que era! Quem, em sã consciência, pensaria diferente? Como se explica uma situação dessas? Primeiro, porque aquela casa sempre esteve fechada e às escuras; segundo, como atribuir a mim o papel principal num episódio tão emocionante e adverso?
A pensão e a vida cotidiana haviam ficado lá fora. Até porque eu não tinha a mínima vontade de lembrar. Mas de vez em quando me surgia o medo de acordar e...
Ao se anunciar, aquela musa abriu um largo sorriso e veio descendo pela escada da esquerda. Ela veio chegando e eu, simplesmente, não acreditava no que via. Sorriu novamente, abriu os braços e me abraçou. Afastei-me um pouco e olhei-a de perto. Ela era tão linda, tão encantadora. Um anjo sem asas, pensei.
Como que ignorando a todos, como se apenas nós dois estivéssemos ali presentes, me pegou pela mão e foi me levando, escada acima. Eu olhava para trás, mas não queria parar de subir. Ela ia à frente, eu a observava pelas costas e ela era linda até neste perfil. Entramos em seu quarto, quando dei por mim, estava diante da maior beleza que jamais havia visto. Não acreditava que pudesse existir uma mulher tão cheirosa, tanto encantamento em uma só pessoa. Eu estava deslumbrado. E tudo estava ali, diante de mim. Aquele corpo perfeito de mulher jovem, tão espetacularmente lindo, se abrindo, se arregaçando toda para mim. Aí num lapso de consciência lhe pergunto:
— Que queres de mim? Sou um homem velho, gasto, usado e cansado. O que poderás ter de mim? Eu nada tenho para te dar.
Ela, com uma expressão séria e firme, mas com a mesma doçura de antes, me fala: — Tens um corpo velho e cansado, mas, teu espírito é jovem.
— E daí?
— Quero teu espírito, teu corpo jaz na pensão.