Não desprezes aquele velho companheiro. Que só quis dar de si, o melhor sem nada pedir. Aquele que sempre te carregou nas costas. Errando, às vezes, sim. Mas quem, tentando fazer certo, não erra às vezes? Podes ter certeza, quando aconteceu foi sem maldade. Foi muito exigente sempre é verdade. Mas lembras, ele nunca mediu esforços em tudo que fez. Foi dedicado sem nunca reclamar do cansaço nas horas de sono. Até mesmo quando se privou da tua presença, queria estar ali, bem perto, não podia, quando chegava em casa noite alta depois do trabalho e todos já dormiam.
Esse velho, muito cansado, tenta se fazer engraçado, talvez, para poder participar da tua vida. Lembras que ele já teve tua idade e logo tu terás a dele. Penses: —Ele quer ser amado e isso tu podes dar nesse momento.
Esse velho, no fim da estrada, sabe que está passando seus últimos capítulos. Sente dores no corpo todo. Sabe que, fatalmente, sua hora está chegando; que está se despedindo da vida e daqueles que tanto ama. Neste momento, talvez, até quando derradeiro, se sente só e não quer se sentir assim. Deves perceber isso. Tentas, então, te acarinhar dele. A qualquer momento pode ser tarde. Ele não estará mais te vendo e tu não mais o verás. Esse que, sempre esteve presente, está caído, quase indo. Lembras que, quando jovem te carregou no colo, muitas vezes tu corcoveaste. Ele te segurou com força, para não te deixar cair. Faças o mesmo com ele.
Ele não pode ser o mesmo, pois o tempo passou levando sua juventude, deixando aquela aparência falida, sem brilho, sempre com sono. Brilho, sim, dos olhos, como cachorro querendo brincar. Dos olhos, sim, pois é a única forma de expressão praticamente. Do resto, pensando bem, meio morto. Não consegue dizer nada. Não sintas vergonha por ele ser velho e maltrapilho. Ele sempre preferiu vestir-se mal e te dar as melhores roupas que pôde comprar. E pelo fato de ser velho, nunca lembrou de se poupar em teu benefício. Mas se, por ventura, tu não conseguires evitar, então pelo menos não deixes transparecer. Lembras que ele sentir-se-á com muito mais vergonha. Não chames sua atenção na presença de ninguém.
Não esqueças que, aquele corpo cansado, carrega em si uma cabeça lúcida mesmo quando um pequeno martelo de trago teima em lhe embaralhar os olhos e a palavra. Ames esse velho. Ele é único e quando ele se for sentirás falta dele, mesmo que no teu entender, ele não mereça. Sentirás medo com sua falta. Pois, mesmo quando velho a presença dele te deu segurança. Não reconhecerás jamais isso, mas muitas vezes te surpreenderás chorando em momentos de saudade.
A dedicação de um pai para com seus filhos somente pode ser comparada ao apego que acontece de um cão para com seu dono. O dono do cão xinga, escorraça, bate, expulsa, bota pra fora de casa. O filho pode agir do mesmo jeito, mas basta um olhar e, tanto o cachorro quanto o pai, esquece tudo e vem se achegando, lambendo os pés de quem sempre foi amado por ele. Lembras, por fim, que ele te pôs no mundo. Viveu sua vida inteira em função de ti. Sempre te amou acima de tudo; que, mesmo, quando te olha suplicante nada quer pra si, apenas te ver realizado e feliz.
Do meu livro “Caminhos & Descaminhos”