O Parcão estava lotado naquele sábado ensolarado, quando o rapaz chegou, acompanhado pelo seu cão São Bernardo. Como fazia nos finais de semana, escolheu um canto mais calmo para ficar brincando com o cachorro. Depois de alguns minutos, notou que um menino, com jeito de excepcional, contido pela mão da mãe, parecia querer entrar na brincadeira. Bastou um sorriso do rapaz para a mãe soltar o menininho, que correu para perto do São Bernardo e abraçou o cachorro, que pareceu entender o garoto. Logo em seguida, o menino e o cão ficaram brincando juntos e o jovem passou a conversar com a mãe. Ficou sabendo que a criança tinha oito anos e era deficiente mental. A mãe confessou que estava surpresa por ver o filho brincando com o São Bernardo, pois jamais se aproximara de outros animaizinhos. Durante um longo tempo, esquecidos do mundo em volta, o cachorro e o menino correram, pularam e brincaram pelos caminhos do Parcão.
Mas o tempo passa. E chegou a hora do rapaz voltar para casa. Depois de se despedir da mãe do garoto, chamou o São Bernardo e teve a primeira surpresa: o cão não queria sair de perto do menino. Estranhou a atitude do cachorro, sempre tão dócil e tão obediente. Precisou levar o bicho quase de arrasto para casa. Muitas vezes, o cão tentou voltar, virando a cabeça para trás e olhando, de um jeito estranho, para o garotinho, parado e tristonho no meio da praça. O São Bernardo, sempre alegre e brincalhão, mudou radicalmente de atitude a partir daquele dia. Passou a ficar parado em um canto do pátio e a recusar a comida. O jovem levou o cão num veterinário. Depois de um minucioso exame, o profissional disse que o cachorro estava muito bem e que deveria ser algum problema passageiro. Mas o São Bernardo parecia piorar a cada dia. A semana passou. Chegou o outro sábado. E o jovem resolveu levar o animal na praça novamente, com a esperança de que algumas corridas e brincadeiras fizessem o cão voltar ao seu ritmo normal de alegria.
O tempo estava nublado naquela tarde de sábado. Mas o sol pareceu brilhar na sua plenitude quando o São Bernardo avistou o menininho excepcional. A festa que os dois fizeram chegou a chamar a atenção de muitos freqüentadores do Parcão. Em poucos segundos, o menino e o cão sumiram brincando juntos. A mãe do menino contou para o rapaz que o filho passara a semana mais triste de sua vida, não se alimentando, chorando e só falando no cachorrinho. Quando ficou sabendo que o cachorro também havia sentido a falta do garoto, ficou emocionada. E tentou comprar o animal. O rapaz explicou que criara aquele São Bernardo desde pequeno e que jamais venderia. Mas confessou que também ficara impressionado com o que havia acontecido. Propôs, então, que o menino levasse o cachorro, mas que a mãe o mantivesse informado sobre o comportamento do São Bernardo, pois ele não queria ver o animal sofrer. Assim foi feito. O São Bernardo acompanhou feliz o garoto e nem olhou para trás para o seu dono que ficou parado no meio da praça. Mesmo gostando muito do animal, o rapaz sentiu que o cachorro havia adotado um novo dono...